sobre amor e renovação

O casal esperava impaciente por sua vez, a sala de espera estava lotada e a situação não era nada confortável. Ele, olhando para os sapatos bem lustrados e fingindo estar tranquilo. Ela, folhando nervosamente uma edição muito antiga de Caras e rezando para que a situação acabasse logo. Os dois casados há quase vinte anos e não conseguiam mais se olhar na cara. Porém, depois do último acontecimento resolveram apelar para a psicanálise por ser o único meio que encontraram, nada muito fora do normal, lugar-comum entre os casais de hoje em dia.Porém, nenhum dos dois colocava muita fé.
A história foi a seguinte: os dois estavam em uma relação desgastada. Ele não aguentava mais as cobranças dela, as reclamações, os suspiros nas horas em que se encontravam em casa, o modo como não conheciam mais a vida um do outro e nem sequer se envergonhavam de viver nessa rotina fajuta. Ela não suportava o quanto ele simplesmente ignorava toda a situação e agia como se nada acontecesse, como se ela fosse um objeto figurativo em sua vida. Os dois não se interessavam mais, havia algo bem mais interessante ocupando a vida de ambos, uma relação virtual.
Era nisso que ele ocupava todo o seu tempo de hora extra no escritório: teclando. E também era o que preenchia as tardes em que ela supostamente deveria estar na academia ou no shopping. Os dois esgueiravam-se pela tela e lá contavam suas vidas de forma aberta, eram pessoas novas e diferentes e libertavam-se da rotina pesada e desconfortável que viviam na vida real em seus relacionamentos.
Certo dia, o homem arrumou-se como nunca antes, usou seu melhor terno , o cabelo cortado, a barba feita, finalmente usou o perfume caro que havia ganhado no natal passado. Motivo: um suposto jantar com um futuro cliente importante. A mulher no exato dia, também estava esplêndida, optou por um vestido preto justo, pele, cabelo, rosto impecáveis, saltos altíssimos. Motivo: suposto jantar com amigas da academia. Estava claro que os dois iriam encontrar-se com seus amantes virtuais.
O homem foi. A mulher esperou por um tempo até ele estar fora de seu campo de visão e então partiu. Ao chegaram no refinado restaurante, uma surpresa: deram de cara com si mesmos.
Os dois ficaram ainda mais aborrecidos um com o outro, praguejaram, alegaram traição e saíram, cada um em seu carro, em casa não deram uma palavra. E agora ali estavam, na sala do analista, esperando por uma resposta convincente para o incidente infeliz que havia acontecido entre os dois.
Ao serem atendidos, os dois retrataram a história de forma feroz, cuspiram as palavras rapidamente antes que pudessem se arrepender de estarem ali, expondo-se a um homem que nunca haviam visto antes na vida, e sujeitos a se tornarem um episódio engraçado do mesmo em uma roda de amigos. História contada, o analista os olhou e sorriu, alegando-lhes que isso nada mais era do que um refúgio que os dois procuraram devido ao desgaste da relação, a busca por novidade. E aí falou algo engraçado que os deixou pensando por dias e os fez repensarem seu casamento e reatarem: O verdadeiro amor não acaba, só perde-se nos labirintos da falta de compreensão, no remoto, no tédio da vida a dois sem surpresas.
Os dois puderam conhecer as diferentes facetas de suas personalidades, aquelas que mantinham escondidas de si mesmos, preferindo manter a falta de humor e o comodismo. E ao se descobrirem pessoas novas tiveram uma surpresa: gostaram muito mais delas.
A história toda nos faz pensar, será que a grande chave que cessará a luta entre amor versus tempo é a novidade?

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